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Google: liderança ameaçada?

A pergunta que anda na boca de toda a gente é: o Google vai resistir? Por quanto tempo? A ameaça à liderança do gigante é bem real. Os grandes impérios caem sempre pela base! Depois de um ano em que o Facebook (FB) ultrapassou pela primeira vez o Google em número de visitas (o tráfego nas redes sociais superou o motor Google que liderava desde 2007) e não pára de angariar mais adeptos, colaboradores e receitas, boas razões têm os responsáveis do Google para se preocuparem.

Sinais dados pelas receitas

No ano de 2010, o Google teve lucros que ultrapassaram os 27 mil milhões de dólares com um crescimento de um trimestre para o outro. Face ao ano de 2009, conseguiu crescer 30%.

Google revenues (fonte: Google)

Google revenues (fonte: Google)

A Apple ainda teve um desempenho mais espectacular e triunfante, sobretudo graças ao último trimestre do ano. Ao todo facturou mais 61% que no ano de 2009, 22 mil milhões de dólares de lucros, sendo a fatia de vendas mais considerável a dos EUA, mas também na China. Vendeu só no último trimestre de 2010: 4 milhões de Macs (+23%), 16 milhões de iPhones (+86%), 7 milhões de iPads, 19 milhões de iPods (-7%). O Facebook foi avaliado recentemente em 50 mil milhões.

Para termos a noção dos valores em causa, uma empresa como o Ikea obteve um lucro anual de 2,6 mil milhões.

Apple: crescimento por produto entre 2005-2010

Apple: crescimento por produto entre 2005-2010

Mexida de cadeiras na direcção do Google

Há dias, num podcast do Twit, comentava-se que a direcção do Google parecia algo alienada da realidade, porque declarava o seu principal rival o Bing da Microsoft e não via perigo da parte do FB. No entanto, isto não deve ser tanto assim, e os responsáveis têm consciência da força das redes sociais na era nova dos negócios. Talvez por isso mesmo tenham optado por alterar as lideranças.

Larry Page, um dos fundadores, vai substituir, a aprtir de Abril, Eric Schmidt à frente há 10 anos, e Sergey Brin estará nos projectos estratégicos. A explicação dada aos investidores foi a de que a alteração visava ajustar melhor a acção dos dois e agilizar o processo de decisão.

A concorrência aperta e exigiu esta reformulação na alta direcção. Mas outras razões podem ser aventadas:

  • cristalização da estrutura, ao contrário de outras bem ágeis e mais simples, como a do próprio Twitter;
  • divergência de posições em casos como a censura na China, a entrada na guerra dos navegadores com o Chrome;
  • mas, sobretudo, devido à soma de conflitos com a indústria dos media, discográfica, editorial (Google acaba de lançar a loja online de livros nos EUA), e processos de desrespeito pela privacidade, sobretudo com origem na Europa e muito ligados ao Streetview. Portanto, o gigantismo tem assustado e colocado muitos organismos, estados e agências à defesa.

A ameaça chamada Facebook

A maior fatia da facturação do Google vem da publicidade e dos serviços de mobile e geolocalização. E os competidores mais directos e activos são o FB, a Apple e a dupla Yahoo-Microsoft.

Se o gerador de receitas do Google gira em torno do seu motor de pesquisa, é necessário que as pessoas de todo o mundo cada vez mais façam aí as suas pesquisasos e utilizem os seus serviços de forma a torná-los atractivos para o mercado empresarial investir aí em publicidade. É neste ponto que reside a debilidade da máquina Google. As pessoas estão a descobrir formas alternativas à até aqui única de estar e satisfazer as suas necessidades de pesquisa.

O Twitter, e cada vez mais o FB, permitem que um número crescente de utilizadores entrem e já não saiam e usem quase exclusivamente os seus serviços para o trabalho, amizade, etc. Outro factor discrepante e decisivo é o tempo de permanência. Se um motor como o Google retém os utilizadores por um período que demora a consulta, o Twitter ou o FB cativam as pessoas por períodos muito longos, criando oportunidades de serem mais facilmente abordados por empresas.

O ambiente social é extremamente interessante para os investidores e anunciantes, porque têm público em número, em permanência e em disponibilidade, afinal, passa-se tudo entre amigos, com lazer associado, etc. A pesquisa torna-se predominantemente social e as pessoas desejam as dicas de amigos e dos seus pares.
Além disso, estas redes estão em permanente revolução e com oferta de novos serviços que acrescentam valor. Nasceram no meio, sabem ouvir os públicos, vivem dessa sua capacidade para se moldarem. Veja-se o exemplo recente do FB que inaugurou o serviço de email instantâneo e SMS, em reposta aos muitos membros da rede que se queixavam da lentidão dos seus serviços convencionais de correio electrónico. Com o lançamento das conversas, como lhe chamou, o FB parece fazer frente ao Google e ameaçar o Gmail. Além disso, estiveram em palco desentendimentos, porque o Gmail passava os contactos ao FB, mas não o contrário. Assim, o Google fechou a porta (a sua API) aos programadores da plataforma FB.

O FB é um microcosmo, uma Internet dentro da Internet, com moeda própria, onde se entra e se tem tudo o que precisa. E nessa perspectiva, foi criado o serviço Facebook Connect que viabiliza a autenticação/ registo noutros sites sem nunca abandonar a plataforma FB. A parte curiosa na história, é que o Google ficou fora da festa. Isto é, os seus crawlers não têm acesso ao mundo FB, logo os seus resultados não vão mostrar o que as pessoas querem saber. Ao contrário, a Microsoft com o Bing oferece resultados do que se diz no FB em tempo real, serviço vedado ao Google. A Microsoft detém títulos do FB!

Este “afastamento” do Google ficou agravado pelo facto da empresa nunca ter conseguido ser bem sucedida nos produtos de vertente social: a rede social Google Me, o serviço Wave, o serviço Buzzer, foram reconhecidamente inovadores, mas não conquistaram as pessoas, não souberam ler-lhes o sentimento. Decididamente, o Google é de uma geração diferente do FB e parece não lidar bem com o social. Os responsáveis afirmam que não têm o mesmo conceito de Internet social que o FB, que não querem criar outro igual. Todavia o modelo de negócio baseado no social é bem rentável e atrai as empresas e receitas de publicidade. A manter-se assim, as receitas de publicidade do Google podem escapar-se, como já o indicam recentes dados.

Segundo a comStore, o Facebook já lidera em temros de publicidade gráfica.

comStore - publicidade gráfica

comStore - publicidade gráfica

Futuro

Pessoalmente, e apesar do gigantismo e algumas deformidades do Google, aprecio globalmente o trabalho que realiza. As iniciativas da empresa para atrair gente jovem, envolver-se em projectos de base alargada e interesse público é reconhecido. Orquestra sinfónica do Youtube, o Labs e o Code, com ferramentas úteis e de excelente qualidade, como por exemplo o Google refine, a ideia de reunir o máximo de informação para disponibilizar ao máximo de pessoas de todo o mundo, o esforço em melhorar os seu serviços sempre que é atacada por violar a privacidade e direitos de autor, as excelentes ferramentas de geolocalização ao serviço de grandes catástrofes e desastres naturais, por exemplo. Pode parecer demasiada generosidade – Be Good, mas essa vertente não existe no FB que é mais clubístico, mais voltado para o fazer dinheiro, mais fechado em si mesmo quanto aos planos que parecem reduzir-se a “como fazer com que as pessoas passem mais tempo na nossa plataforma?”

Admito que haja outras opiniões e que venha a mudar o meu ponto de vista, mas até à data não vi uma empresa com projectos tão diversificados, úteis em si mesmo, com valor acrescentado para populações, como o Google.


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