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Os rumores anunciavam que o Google ia entrar na indústria dos telemóveis. Aliás, já aquando do lançamento do Android, havia essa expectativa que se cumpriu esta semana com a estreia do Google phone, de seu nome Nexus One. O facto originou comentários, críticas acerca das especificações, características, mas também comparativos e análises acerca do modelo de negócio e do futuro deste sector.
Nexus One, cujo nome se julga estar ligado ao robô de Blade Runner (filme de Ridley Scott baseado num romance de Philip K. Dick), prepara-se para defrontar a Apple que desde há 3 anos não tem tido oposição de peso. E, aproveito para deixar a nota a propósito: esta luta entre titãs parece estar a começar. Se o Google acaba de entrar no campo dos telemóveis, a Apple comprou a Quattro, empresa de publicidade móvel, para se estrear no mercado liderado pelo Google, o da publicidade. Sabe-se que 80% dos downloads da Apple Store são gratuitos, por isso é normal que a Apple queira rentabilizar a plataforma de elevado tráfego com anúncios para telemóveis.
A Quattro era concorrente de uma outra do mesmo ramo que foi adquirida pelo Google, a AdMob. Ora, tudo indica que o arqui-inimigo da Apple deixou de ser a Microsoft. Não será de espantar se um dia destes aparece o figurarão da Apple com o Google. A dúvida está em saber que traço caricato vão explorar.
As estratégias destas empresas parecem ser caprichos de noites mal dormidas! Mas o que se passa realmente é que este universo é extremamente dinâmico, requer reacções viscerais e apaixonadas, tudo gira à flor da pele. A orientação é agora “móvel”, “mobilidade”, “internet por telemóvel”. Essa orientação já a entendeu o Google há muito, tendo estado nos últimos anos a preparar a transição para a plataforma móvel. E os trabalhos de casa foram feitos com esmero, senão vejamos.
Estas informações podem ser confirmadas na Wikipedia, comprovando-se mais uma vez a capacidade de trabalho de formiguinha da comunidade imensa. Há jornais que não têm este conjunto de factos sistematizados!
Em 2005, compra Android Inc., uma pequena startup que fazia softwares para telemóveis.
Em 2007, forma a Open Handset Alliance, um grupo de 30 empresas dedicado ao desenvolvimento de padrões abertos para dispositivos móveis. Dela fazem parte a Texas Instruments, Broadcom Corporation, HTC, Intel, LG, Marvell Technology Group, Motorola, Nvidia, Qualcomm, Samsung Electronics, Sprint Nextel, T-Mobile. Nesse mesmo ano, adquiriu a Grand Central, especializada em Voz por IP, cuja aplicação imediata fez-se no Google Voice.
Em 2008, lança o Android, sistema operativo em código aberto. O golpe foi ao coração da Microsoft. Alguns afirmaram que não vingaria, mas em pouco tempo saiu o HTC Hero e seguiram-se outros sucessos, o último dos quais o Droid da Motorola.
Em 2009, é a vez da AdMob, uma rede de publicidade para aplicações móveis. Tentou ainda comprar o Yelp, especializado em opiniões de pessoas comuns sobre serviços e empresas de restauração, hotelaria, etc. Existe app para iPhone gratuita. Esta tentativa gorada prova mais uma vez a linha estratégica, confirmada no arranque de 2010, 2 dias antes da CES (Consumer Electronics Show), lança o Nexus One.
Além das aquisições e incorporação dessa tecnologia nos seus produtos, o Google também investiu muito na melhoria dos seus produtos. Estou a pensar nas tecnologias de mapeamento, de geolocalização, de pesquisa que são fundamentais em serviços de publicidade mais localizada, contextualizada e personalizada.
Portanto, desde pelo menos 2005 que a empresa tinha a plataforma móvel em mente. E a verdade é que na actualidade, isso é evidente. Já não é preciso ser visionário. O telemóvel é o dispositivo mais adoptado e generalizado. A quantidade de funcionalidades e aplicativos disponíveis para telemóvel tem crescido em oferta e em descargas (a Apple já ultrapassou os 3 mil milhões!). O poder destes aparelhos, cada vez mais finos, mais potentes, mais integráveis, mais capazes de processar vídeo, televisão, 3D, e com capacidade de armazenamento alargada ou combinada com soluções de cloud, faz deles o objecto de desejo. O travão é apenas o custo, que tem estado nos 400 ou 600€. O que o Google está a propor é a democratização do acesso a estes dispositivo, como veremos a seguir.
Receoso de perder o protagonismo e não poder estar no centro da mesa de decisões nos próximos anos, o Google entra em força no mercado móvel. É preciso não esquecer que o seu actual mercado e fonte de receitas está na publicidade associada ao motor Google em plataforma portátil ou PC. A realidade móvel é outra e é preciso mudar armas e bagagens. Para criar base sustentável, nada melhor que alargar a base de uso dos dispositivos móveis. Se mais gente tiver telemóvel, mais gente vai pesquisar Google, mais receitas de publicidade serão geradas.
A empresa esclarece que não é sua intenção fazer dinheiro com o smartphone. O objectivo principal é avançar para loja/ estrutura online que possibilite um canal de distribuição do Android e de outros produtos (acrescentamos nós). Está-se a ver que no futuro, o negócio pode ser perfeitamente vender livros do programa Google Books Search.
Criticada por uns, elogiada por outros, a abordagem ao mercado é alvo de análise. Quando compara à da Apple, é totalmente distinta. Enquanto a Apple quer vender telefones e aplicações associadas, para tal entusiasmando os programadores por esse mundo fora a criar a partir da sua framework, o Google optou por uma framework aberta, onde o desenvolvimento também segue o modelo aberto. Enquanto a Apple controla todo o processo, desde a concepção à distribuição, o Google aposta na na concepção cuidada, mas em parceria, e numa comercialização também livre. Quer dar ao consumidor a liberdade de comprar o telefone, os serviços, a operadora, as aplicações, livremente. A ideia é que neste cenário, mais pessoas optarão pela solução móvel por haver mais escolha e pacotes para todos os bolsos.
Para alguns analistas, nem o modelo nem o Nexus constituem novidade, para outros é uma revolução, porque vem energizar ainda mais o mercado e colocar a concorrência não ao nível das empresas, mas do consumidor. You decide!
Os competidores do Google vêem neste projecto uma diversificação da oferta do mercado e uma oportunidade de expansão mais consistente do Android. Comenta-se no meio que este lançamento é um duro golpe para o Droid da Motorola, mais até do que para o iPhone. O Google e a Motorola foram colaboradores empenhados na época 2008/2009, mas o convite lançado à HTC para construir o Nexus criou estreita cooperação entre estes dois elementos da Aliança. Contudo o público alvo dos dois produtos não é o mesmo, enquanto que o Droid se dirige a um segmento profissional/ executivo (mais na linha do Black Berry), o Nexus pretende ser mais abrangente atraindo o consumidor genérico que adere aos novos gadgets e funcionalidades.
O Nexus One é produto da parceria Google/HTC, tendo cabido a concepção, design e software ao Google e a construção à HTC. Ainda houve contributos da tecnologia CoolIris para visualização de imagens em painel, muito adequada e atraente para telemóvel.
Abaixo o vídeo de apresentação disponibilizado pela Google.
Com base em várias análises e textos, entre as quais a do Telegraph, destaquei alguns elementos que despertaram mais interesse.
Os pontos em que o Nexus capitaliza mais frente ao iPhone são certamente a velocidade e a resolução, além da boa integração com aplicações de correio, redes, etc. Já perde se atendermos à capacidade de armazenamento de base – 32GB contra 512MB, entre os quais 190 MB para guardar apps (o Nexus vem com um cartão MicroSD de 4GB expansível a 32GB). Outra desvantagem é a menor oferta de aplicações, 18000 contra 100000 do iPhone. Creio pessoalmente que estes factores não pesarão muito contra o Nexus, porque a cloud é realidade num futuro imediato para armazenamento, e porque o Android Market vai certamente conhecer um grande desenvolvimento impulsionado por tudo isto. Além disso, é preciso não esquecer que há um ano não havia Nexus e que há dois anos não havia Android! Ficou provada a capacidade de crescer ecriar produtos competitivos em curto espaço de tempo.
A maior crítica que vejo prende-se com a impossibilidade de usar iTunes. Aí, sim, acredito que muitos se inclinarão para o iPhone.
A chegada à Europa está prevista para a Primavera, havendo já certeza de acordo com a Vodafone, mas há negociações em curso.
Já aqui abordei a questão das App Stores e do protagonismo que estão a gozar juntamente com a onda dos smartphones. Os consumidores de aplicações e programas disponibilizados nas App Stores gastam menos 25% do tempo diário na televisão, jornais ou computadores. E a explicação é lógica: os dispositivos móveis gozam cada vez mais de autonomia e portabilidade, sendo muito valorizados pelo leque de pequenos programas que cobrem a totalidade das actividades humanas do mundo moderno e ainda pelas possibilidades que se abrem na cloud, sem limites de armazenamento e acesso. Para quê andar com o computador se o telefone inteligente responde às necessidades de mobilidade + utilidade + armazenamento?

Em Portugal, esta mania ainda não é clara, mas espera-se que no Natal se sinta um crescendo de procura destas soluções. Contudo, o efeito “viciante” já estudado nos EUA ainda vai demorar a fazer-se sentir em território luso. Ou talvez não… Mas o sucesso que sempre foram as comunicações móveis no nosso país, deixa uma porta aberta a sucessores de nova geração. Tudo vai depender da evolução económica e da oferta do mercado acessível aos bolsos nacionais.
As pessoas são impelidas a usar a tecnologia associada aos telefones inteligentes porque é fortemente personalizada e muito próxima, quase íntima arriscaria. Além disso, é fácil de usar e permite uma efectiva apropriação. A distância é abismal quando comparada à tecnologia da televisão, rádio, e mesmo Internet em geral. A experiência do “eu” utilizador é, nestes casos, menos envolvente e pessoalmente marcante, porque a tecnologia está fora, é manipulada por terceiros, que também editam os conteúdos.
No caso dos telefones inteligentes e aplicações associadas, a experiência pessoal é muito mais rica e muito mais inesquecível. Tudo começa pela proximidade física e portabilidade. O telefone acompanha a pessoa para todo o lado, cola-se-lhe à pele, funciona como extensão do corpo, do cérebro.
Escolher a camisa para o amigo que festeja o seu aniversário e gosta da marca X, tendo a pessoa sabido isso pelo Facebook a que acede através do meu smartphone não é ficção, não parece nada de extraordinário, e, no entanto, contém em si mesma mudanças substanciais, uma espécie de revolução silenciosa.
Essas mudanças de que falo passam por integrar a tecnologia sem questionamento. E a sedução da tecnologia ocorre mais aceleradamente com os telefones inteligentes, porque são considerados pelas pessoas como algo familiar, próximo, que infunde confiança. As pessoas vêem-nos como parte da sua vida, algo de insubstituível, de seu. Dá-se uma espécie de personalização da tecnologia dado o nível de integração pessoa-tecnologia. E falo bem, pessoa, e não grupo de consumidores ou perfil. O próprio marketing está a marcar pontos nessa personalização que já não tem que ver com o “Olá, Cláudia”, mas vai muito, muito mais longe. São estes dispositivos e o seu uso inteiramente personalizado que abre um novo mercado, extremamente apetitoso.
A prova de que estas aplicações e dispositivos inundam todos os momentos do quotidiano é a categorização das aplicações nas App Stores: aplicações para o trabalho, a viagem de negócios, a forma física, as compras, a gestão doméstica, os investimentos na bolsa e fundos, etc. O telefone inteligente assume a cada momento o papel de guia da cidade, de mapa, de conselheiro financeiro, de personal trainer, de medidor de açúcar no sangue, enfim, de tudo o que se possa imaginar, mas cada vez menos de telefone. É um assistente permanente que se metamorfoseia a cada instante.
Mas o elemento mais elucidativo desta “dependência” tecnológica é talvez a recolha de testemunhos e experiências havidas com estes dispositivos num artigo da New Scientist intitulado “How smartphones are transforming our lives“. Existe uma aplicação para o iPhone, o Yelp, que é um guia de restaurantes. Até aqui tudo bem. A questão é que há pessoas que deixam de confiar nos seus olhos e intuição para seguir cegamente a recomendação fornecida pelo programa. A cena ocorreu com um casal em busca de restaurante que passou por uma série deles, mas não parou nem avaliou o interesse de jantar por aí. Preferiram seguir as indicações dadas pelo Yelp. No intrincado de ruas, acabaram por perder o contacto com a rede e pelos vistos o bom senso! Mas estas situações ridículas serão cada vez mais frequentes, porque gradualmente baixamos a guarda e deixamos de contar com os nossos meios, a nossa capacidade de decisão, avaliação e actuação.
A fronteira entre a tecnologia ao nosso serviço ou nós ao serviço da tecnologia é muito esbatida num cenário em que o envolvimento tecnológico é tão natural, à medida e confortável. Este poder de sedução da tecnologia moldável, prestável, útil, disponível, acessível, vai num crescendo imparável e outra coisa não seria de esperar. Antes da realidade virtual, já temos experiências bem sucedidas da realidade aumentada. Duas aplicações da plataforma Android, Layer e Wikitude, mostram claramente o mundo de possibilidades que se abre, não para um futuro próximo, mas para já. O princípio da realidade aumentada melhora a resolução, a captura, a representação da realidade, acrescentando-lhe informações de várias fontes, aumentando consequentemente a percepção do meio pela pessoa.
A experiência do olhar humano capta prédios, onde a realidade aumentada vê apartamentos para comprar. O problema, não é a tecnologia, que em princípio é positiva e desejada. O grande problema estará na progressiva desmobilização dos nossos meios e defesas naturais e, sobretudo, na forma como será seleccionada a informação ou conteúdos a privilegiar na realidade aumentada. Se as pessoas passarem a escolher a sua casa desta forma, as casas que não aparecerem no programa, não existem. Tirania da tecnologia e dos melhor posicionados para tirar partido e controlar de alguma forma o que cada um de nós vai ver, valorizar, conhecer e escolher “livremente” através das muitas aplicações.
A confiança cega na tecnologia pode embaraçar-nos muito, e seria melhor que fosse pelo ridículo, que pela selecção alheia do que vamos vendo, lendo, opinando e falando por aí…
A GravityTank realizou um estudo e chegou a algumas conclusões curiosas. Os estudos valem o que valem e as amostras, como neste caso, são sempre amostras. A análise de fenómenos como o da relação das pessoas com a tecnologia é muito complexa e difícil de delimitar. Contudo, avanço algumas linhas dos resultados.
Foram inquiridos 804 utilizadores de iPhone e Android G1, embora tenha havido um seguimento mais pormenorizado de uma vintena desse universo mais lato.
Relativamente ao uso, as pessoas gastam 2 horas/ dia nas apps dos seus telefones inteligentes. Esta contabilização exclui o uso do telefone para telefone propriamente dito, para e-mail e para SMS. São cerca de 30 as interacções diárias com o smartphone para consultar aplicações específicas. Cada pessoa tem em média 20 aplicações, sendo 25% dessas a pagar.
Consultadas sobre o que significa para si as App, ou seja, que associações fazem: 63% associa a divertimento; 50% a utilidade; 45% a interesse para monitorizar crianças; 46% a saúde.
Só 7% dos inquiridos acha que é uma moda, portanto, algo efémero que vai passar. Porque 54% admitem que as app mudaram a sua forma de pensar e 35% acham que mudaram a própria vida.
Uns significativos 53% consideram que as app estarão na base da promoção dos serviços e produtos que virão a consumir e a usar. Devo dizer que esta percentagem me surpreendeu, pois não esperava que a metade dos inquiridos tivesse consciência que o filtro do consumo pudesse vir a ser feito através destes dispositivos. A ideia que tenho do consumidor comum é a de que ele controla quando, onde e como comprar e não se deixa manipular.