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HTML5 e Flash, e agora?

Flash versus HTML5Em todos os grandes canais de notícias de tecnologia – Read&WriteWeb, Techcrunch, discute-se a guerra aberta entre os formatos Flash ou HTML5 para o vídeo, em outros termos, a guerra entre a Adobe e a Apple.

Desde o lançamento no mercado do iPad que a empresa não permite Flash em nenhum dos seus dispositivos. Esta recusa apanhou o mercado de surpresa. Primeiro, foi a chuva de críticas pelo facto de não permitir ver conteúdos em Flash. Seguiram-se as explicações do CEO Jobs, o contra-ataque da Adobe, o destaque dado ao HTML5. Sobre tudo isto e muito mais daremos conta em seguida.

E no princípio, tudo era Flash

Desde há uns bons pares de anos e perspectivando outros tantos, a Adobe preparava-se para reeditar a proeza do PDF com o Flash. Impor-se como formato universalmente aceite e adoptado pelos consumidores e programadores e indústria. Seguindo a mesma táctica, disponibiliza plug-in para os navegadores lerem Flash, ou o Flash Player, e facilita especificações para que seja possível desenvolver ferramentas de criação, edição. Banalização, adopção em massa e uso generalizado em banners (publicidade), páginas web, jogos, apresentações, sítios inteiros, têm caracterizado a forma de estar da empresa no mercado.

A interactividade e animação conseguidas com criações Flash seduziram os públicos e anunciantes desde logo e a empresa esmerou-se para tornar o Flash presente e interessante em todas as plataformas, sistemas operativos e navegadores.

O uso de Flash na plataforma Youtube mostra bem a aceitação no mercado.

Afinal, há alternativa

Apesar do mundo parecer perfeito, alguém levantou a voz e disse que havia melhor. Esse alguém foi Steve Jobs da Apple num texto denominado Thoughts on Flash. Foi logo secundado por outros, uns mais acérrimos e azedos que outros, mas os sectarismos surgiram logo e a paisagem paradisíaca virou campo de batalha.

Numa linguagem sem papas na língua, Jobs expõe os motivos para recusar o Flash nos dispositivos iPhone, iPod e iPad. Diz que o faz por transparência e para contestar a ideia avançada pela Adobe que é por temor à concorrência. As razões, garante Jobs, são puramente tecnológicas.

  1. Flash é proprietário. A Adobe é a única empresa detentora e com total controlo sobre o futuro e o custo do Flash. Ora a Apple entende que os standards da Web como recomendado pela W3C devem ser abertos, como o HTML, o Javascript e o CSS. Se existe uma alternativa aberta e não proprietária, essa deve ser a preferida pela Apple.
  2. Cobertura da web não é problema. A Adobe na sua campanha de ataque insinuou que não disponibilizar Flash era o mesmo que não dar acesso a uma parte significativa da web. Mas existe um outro formato concorrente, o H.264, que funciona nos aparelhos Apple, que foi adoptado pelo Google (Youtube), Vimeo, Apple. Quanto aos jogos em Flash de que os consumidores estariam privados, Jobs refere que a gama que existe na App Store da Apple é tão vasta que não deixa o jogador com pena.
  3. Desempenho e segurança diminuídos. A Apple alega que os problemas no Mac e exposição a perigos de segurança advêm e são potenciados pelo Flash.
  4. Consumo de bateria enorme. O H.264 funciona com o descodificador no hardware que economiza bateria, ao passo que o Flash solicita demasiada bateria, o que é muito crítico em dispositivos móveis.
  5. Flash desadequado para dispositivos móveis. Steve explica que o Flash nasceu para o PC e o rato e não para dispositivos de ecrã táctil. Todas as aplicações Flash têm de ser reescritas para funcionarem em versão móvel. A pergunta que faz é: se é necessário reescrever, porque não usar HTML5 e outras normas abertas?
  6. Plataformas da Apple independentes. A Apple pretende uma plataforma o mais aberta possível para que os programadores sejam inovadores e não se sintam constrangidos por um formato ou actualizações e implementações tardias das ferramentas. Acrescenta que a Adobe tarda em responder às necessidades do mercado e não tem ainda pronto o Flash para contexto móvel.

Conversa para desviar atenções

O desenvolvimento e aperfeiçoamento da tecnologia Flash para iPhone foi abandonado depois da troca azeda de galhardetes durante 3 meses entre as duas empresas. Adobe virou-se a 100% para o Android, festeja sempre que programadores de aplicações iPhone migram para Android e responde à argumentação de Steve Jobs:

  • Acusa a Apple de querer criar um ecossistema fechado em que define que tecnologias aceitar e rejeitar e impõe essa lista aos programadores
  • Defende-se dizendo que o Flash não é proprietário, mas uma especificação aberta
  • Explica que os problemas no Mac é do sistema e não do software da Adobe
  • Garante que a estratégia da Aplle é económica e não tecnológica

E é caso para questionar se os motivos são tecnológicos ou se se trata de uma estratégia comercial e de procura da liderança no mercado do vídeo e da publicidade.

São mais contendores que contendas

Até agora, a Adobe detém a liderança da descodificação do vídeo com 75% de todos os vídeos, pelo que é legítimo saber que razões terão levado Jobs a atacr o parceiro de negócios e desenvolvimento até aqui. Se analisarmos os argumentos de um lado e de outro, vemos algumas movimentações.

Jobs tem motivos suficientes para criticar o Flash e parece não estar só nesse golpe:

  1. Desde a chegada ao mercado dos telefones inteligentes, dos tablets e dos “ebooks faz-tudo”, que a realidade o móvel se impôs à força toda, área em que a Adobe ainda não conseguiu dar uma resposta cabal e satisfatória aos que implementam Flash
  2. A incapacidade em responder com a mesma eficiência que o fez para o PC vê-se na corrida a soluções para lá do Flash pelas empresas que lideram a construção de hardware e software para estes dispositivos emergentes
  3. Há muita gente de vários quadrantes que afirma que o Flash não tem desempenho impecável, como é o caso do responsável pelo IE
  4. O HTML5, em fase de testes, e só provavelmente disponível para produção em 2012, começa a afigurar-se como uma alternativa com pés para andar e já foi abraçado pelo Google, Apple, Opera, Mozilla, IBM e Microsoft

Jobs não diz toda a verdade, porque a Apple, que tem a maior loja de aplicações e a maior plataforma de desenvolvimento, alterou as regras de licenciamento e impõe uma série de regras e proibições, entre as quais o uso de Flash, aos programadores que queiram criar aplicativos para iPhone, iPad e iPod. Além disso, só autoriza tecnologia Apple ou tecnologia por si aprovada, limita o acesso de dados dos utilizadores a terceiros, ficando com eles para potenciar o seu negócio de publicidade, e obriga ao uso da sua plataforma de publicidade iAd para todos aqueles que queiram ganhar dinheiro pela publicidade com as suas criações.

  1. A Adobe tem razão ao afirmar que a plataforma da Apple é fechada
  2. A debandada de alguns programadores da plataforma Apple para Android prova que existe contestação e desconforto com esta falta de liberdade. Um estudo da AdMob indica que 70% dos programadores pensam nos próximos 6 meses passar à plataforma Android para criar publicidade. Além disso, o Google é mais pro-open standards
  3. A política recente da Apple aos programadores da sua App Store está a ser alvo de investigação, porque se crê que possa estar a violar as leis da concorrência
  4. Existe uma incoerência no discurso de Jobs que se declara a favor de normas abertas, mas defende o codec proprietário H.264 como lembra Hugo Roy da Free Software Foundation Europe
  5. A recusa da Apple neste momento representaria fortes quebras na receita da publicidade, caso não existisse forma de converter o Flash em HTML5, o formato iFlash, que é suportado pelo iPhone e família Apple.

A mais valia do HTML5 face ao Flash

Sucessor do HTML4 de 1997, com desenvolvimentos em XML e XHTML, o HTML5 não podia receber melhor publicidade que a proporcionada pela recente polémica. Todos passaram a falar e põem os olhos aí. A este propósito, veja-se o gráfico do Google Insights Search que revela nos últimos meses um pico de procura na pesquisa.

HTML5 nas pesquisas

Nesta matéria como noutras, surgem as fileiras de um e outro lado, ocorrem escaramuças aqui, batalhas mais sangrentas ali, mas numa coisa parece haver consenso. O HTML5, o markup por excelência da Web, vem para ficar e tudo é uma questão de tempo. A própria Adobe não se cansa de repetir que não será destronada do dia para a noite e que o convívio será inevitável. Por sua vez, a W3C prevê o salto em 2011/ 2012. O que significa na prática que vão ainda ser necessários 2 anos para generalizar, mas a maioria dos navegadores já suporta HTML5 – Firefox, Safari, Chrome, e brevemente Explorer, o IE9.

Tanto Flash como HTML5 permitem criar aplicações ricas em conteúdo para ambientes Internet, mas com uma diferença substancial. Enquanto o HTML5 permite inserir vídeo e áudio de forma nativa sem plugins, o Flash, que é uma aplicação RIA Rich Internet Applications é chamado para que o navegador apresente o vídeo e áudio. Um comparativo detalhado está disponível no Guia da Ludamix e testes ao desempenho estão aqui.

Outras características muito positivas do HTML5:

  • Vê o número de etiquetas para estruturar e descrever o conteúdo bastante alargado, o que abre caminho à Web semântica;
  • Permite introduzir metadados úteis para os navegadores e os motores de pesquisa, ao contrário do Flash que é pouco amigável para a optimização do posicionamento na Web e dá pouca informação aos motores para a indexação;
  • Permite incrustar vídeo e áudio nativamente sem necessidade de aplicações terceiras como Flash (da Adobe), JavaFX (da Sun) ou Silverlight (da Microsoft);
  • Padroniza a apresentação dos vídeos e permite legendas, títulos e subtítulos;
  • Carrega os vídeos mais rapidamente e com possibilidade de saltar para qualquer parte do vídeo;
  • Guarda dados em local para visualização offline;
  • Inclui etiquetas de geolocalização;
  • É verdadeiramente multi-plataforma, multi-navegador e presta-se a ser base de trabalho em qualquer plataforma de desenvolvimento, o que facilita a transferência entre plataformas e a criação de produtos que funcionam em todas elas.

Apesar do bom avanço, uma nuvem paira no ar – a guerra dos codecs que são necessários para descodificar o vídeo. O Google e a Apple apoiam o formato proprietário H.264, a Mozilla e o Opera o formato livre Ogg Theora, defendido pelo consórcio W3C. Mais recentemente, o Google anunciou o lançamento do VP8, cujo código quer abrir com a ajuda da Mozilla.

A adopção de qualquer destes adia a introdução do HTML5, sendo aliás um dos argumentos fortes dos adeptos do Flash: para quê estar a reescrever numa nova linguagem e aumentar a entropia com a escolha de codecs, se o Flash já é uma realidade, é conhecido tanto pelas equipas de desenvolvimento como pelos consumidores que possuem ferramentas adequadas que ainda podem ser mais aperfeiçoadas com o empenho da Adobe?

A Adobe já provou que tem garra e segue estratégias fortes de habituação do mercado. Não tenho dúvidas acerca do seu plano de tornar o Flash mais eficiente e extensível a qualquer plataforma e projecto. Já acho mais obscuros os desígnios da Apple. Todavia, o Flash nunca foi nem nada leva a crer que venha a mudar substancialmente os seus índices de baixa acessibilidade. Com acessibilidade refiro-me àquela característica de aceder ao conteúdo sem barreiras e de forma transparente. Não existe nada pior que um sítio construído em Flash para pessoas portadoras de deficiência, que o diga Katherine Lynch, uma especialista em acessibilidade e usabilidade da Drexel Libraries em Filadélfia.


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