Quis neste artigo aprofundar o tema das áreas e a cobertura geográfica das mesmas, reflectindo acerca das implicações futuras.
Neste pequeno levantamento, socorri-me dos dados do CES 2009, que disponibiliza no seu site oficial números relativos aos stands presentes, que ultrapassaram as 2000 empresas. Pesquisando por área, foi-me possível extrair os totais por área e obter a distribuição por país. Realizadas as médias e achada a percentagem, ficam alguns números que podem espelhar uma realidade emergente e algumas preocupações.
Mas impõem-se em primeira mão, uma breve explicação acerca do conteúdo de cada área tecnológica.
As 9 áreas em destaque revelam claramente a orientação do mercado. Há sectores específicos tão dinâmicos que têm uma área só para si, caso dos Jogos, enquanto outros se arrumam numa categoria tão ampla que parece tudo incluir. Verifica-se actualmente que o áudio está na berra, estando presente em 2 categorias. Isto está directamente relacionado com os novos desenvolvimentos, sobretudo na tecnologia de reconhecimento e conversão de texto em áudio.
Uma breve passagem por cada categoria deixar-nos-á mais esclarecidos acerca do conteúdo e grandes linhas deste encontro anual de tecnologia.
Antes de passar à análise e comentário de números, impõe-se um pequeno parênteses relativo ao protagonismo justificável dos EUA. Adianto 3 motivos que explicam parcialmente o peso das empresas americanas no evento. Para começar, jogam em casa, embora num mercado global e de fácil mobilidade seja cada vez mais difícil justificar a ausência em eventos com esta projecção. O mercado americano é vasto e sempre mostrou apetite e avidez por gadgets e inovação tecnológica. O espectro da crise poderá ter inviabilizado algumas presenças, embora entenda que a participação neste show seja opção estratégica de fundo e tenha de fazer parte de pro-actividade que se quer ainda mais determinada em épocas de recessão e dificuldade.
Se algumas empresas não americanas deixaram de apresentar os seus produtos e serviços, muito provavelmente estão a perder desvantagem e oportunidades.
Gostava ainda de chamar a atenção relativamente ao cariz das empresas presentes no CES. Uma parte considerável faz desenvolvimento e inova, mas a maioria são representantes de marcas e interlocutores directos do consumidor final. Não vamos pensar que todas as empresas totalizadas em cada uma das áreas no quadro estão a desenvolver de raiz produtos. Se considerarmos, como é natural, que o nº de empresas desse tipo são sobretudo americanas, pois o esforço para estar presente é menor, podemos concluir que as empresas distantes geograficamente são com toda a probabilidade empresas que fazem desenvolvimento, inovação e têm uma estratégia de internacionalização.
No quadro, os EUA têm uns confortáveis 63% contra os 10% da China. Mas de relevar que a posição da China já pesa mais que a categoria “outros”! Desengane-se de uma vez por todas quem pensa que a China se limita a copiar e não é capaz de liderar processos de tecnologia, cada vez mais sofisticados.
A análise por grandes blocos geográficos, EUA-Canadá/ Ásia deixa entrever um duelo renhido num futuro bem próximo. Toda a Ásia presente no CES já representa 22% das empresas. Esta afirmação crescente já não surpreende. O que surpreende muito pela negativa e deixa uma sombra negra a pairar é a expressão mínima da Europa. Já não falo da UE mas do continente europeu, que inclui os países escandinavos com provas dadas no mercado tecnológico. Poder-se-á argumentar: são poucas as empresas europeias, mas são líderes do mercado e têm um peso enorme no mercado mundial. Pensemos na Nokia, por exemplo. Acontece porém, que o mercado da tecnologia é tanto mais promissor quanto mais pequenas empresas tiver. É uma lógica diferente das empresas da era industrial que se queriam grandes e robustas, porque poucas seguravam a economia.
O fervilhar de start-ups sempre a criar novos usos e novos produtos é que dinamiza um mercado como o tecnológico. A Nokia lançou, à imitação da Apple, do Google, e de outros, a sua loja Ovi, abriu a sua plataforma de desenvolvimento dando condições boas aos programadores, e nem assim granjeou muito adeptos. Há mais de um ano que preparava a abertura do código do sistema operativo para telemóveis Symbian, porque tudo indica que plataformas de desenvolvimento abertas e distribuídas dinamizam muito o mercado, como é exemplo o Android. Um gigante como a Nokia não se quer ficar pelo hardware, quer entrar em força no software, aplicativos e chegar ao consumidor final, ou seja, controlar toda a cadeia para poder vender o telemóveis que fabrica.
Isto tudo para provar que o dinamismo e empreendedorismo é que marcam a diferença.
O famoso Silicon Valley, conhecido pela concentração de empresas de I&D, software e electrónica, tem réplicas na Índia, em Bangalore, na China, mas não existe um centro com esse dinamismo em território europeu. Uma lista de centros de pesquisa organizada por país pode ser consultada na Wikipédia.
A perda de liderança tecnológica traduz-se a muito curto prazo numa perda de protagonismo político. E já assistimos a manifestações dessa natureza. Obama cancelou a vinda a Madrid para a Cimeira EUA-UE por estar muito ocupado com assuntos internos. Líderes europeus desvalorizaram, mas é sintomático de mudanças.
Em notícia, por alturas da compra da Tandberg pela Cisco ( em Setembro de 2009), a UE ligou mais uma vez o alerta amarelo e mostrou-se preocupada com a falta de iniciativa e liderança das empresas europeias na área das TIC. As poucas empresas inovadoras e com potencial estão a ser compradas por gigantes asiáticos (Japão, Coreia do Sul, Taiwan) ou americanos. A Tandberg norueguesa dedicava-se à comunicação visual (videoconferência) e foi comprada pela americana Cisco.
Revelando dados do 1º semestre de 2009, a Gartner publicou os rankings na área tecnológica:
A liderança europeia só se verifica na área empresarial e dos telemóveis e sempre com forte concorrência:
Recentemente na cimeira de Davos, o ritmo do compasso foi o das economias emergentes, como a índia, China, Brasil. A Índia é já um líder tecnológico e não só faz I&D local como exporta “cérebros” para todo o mundo, sobretudo para os EUA. Além disso faz muito outsourcing.
Olhando para a paisagem europeia, há sérios motivos para apreensão, tanto mais que o espectro do desemprego, a fragilidade da economia e a ameaça de desmoronamento ante o fracasso de programas de controlo de despesa como os verificados na Grécia e, em certa medida, em Portugal, periga a posição da Europa no mundo. E convenhamos que todos ficamos mais pobres se a voz europeia perde protagonismo e capacidade de projecção.
O Reino Unido é o único que consegue figurar na lista dos +. Economias fortes como a alemã, italiana ou francesa, teriam de ter um peso mais significativo no bolo. A Dinamarca e a Suíça surgem com um bom desempenho. O mercado da Europa setentrional, como vimos, é liderado por poucas marcas, mas fortes, Nokia e Ericsson. Apesar de não surgirem dados de Portugal, a Ydreams fez-se representar em parceria com a americana Canesta que desenvolve webcams que projectam imagens 3D.
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