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Balanço do CES

O CES é o um local de culto da tecnologia, a Meca dos gadgets. Dita tendências, mede forças, realiza lançamentos. Tem lugar em Las Vegas e reúne os gigantes e start-ups do momento num mesmo mesmo espaço. É um caldo, tanto para consumidores como para empreendedores, que procuram empresas para aquisição ou parceria.

Realiza-se há 40 anos e caracteriza-se pela apresentação de produtos que fazem parte dos hábitos dos consumidores no(s) ano(s) seguinte(s). Em 1970, o último grito eram os leitores de vídeo, em 1993 foi a vez do minidisc, em 1998 a televisão de alta definição ou o plasma em 2001. Enfim, todos os anos, são lançados novos produtos para o mercado. E este ano não foi excepção, registando-se alguns aspectos dominantes. Nos passados dias 7 a 10 de Janeiro realizou-se mais uma edição, que dou conta neste post, com mais um cheirinho do pós-CES.

A feira tecnológica em números

Os números são sempre eloquentes, tanto mais se estivermos a falar  de um evento que lança 20 mil produtos em 5 dias e que chama ao palco centenas de países e 2500 empresas. Dei-me ao trabalho de explorar algumas categorias por país de que darei conta em próximo post. Estes dados foram consultados no website oficial do CES, estando já anunciada a próxima data da evento – 6 a 9 de Janeiro de 2011.

Conceitos

Estamos a assistir a uma cada vez maior integração e mistura de dispositivos e funcionalidades. Máquinas de jogos que navegam na Internet e permitem ouvir música, dispositivos de leitura com funcionalidades de escritório, aparelhos vocacionados para trabalho que estendem funcionalidades ao terreno do entretenimento.

Integração, polivalência, multifunções, têm sido trabalhadas pelas empresas do sector a pedido do maior conforto, simplicidade e acessibilidade para os consumidores. Ora, atender a esta expectativa tem levado algumas empresas a invadir as áreas de outras e a criar alguma tensão. Também o lançamento de múltiplos dispositivos com designações diferentes tem originado confusão, daí ter sentido necessidade de lançar alguma sistematização.

Apesar dos muitos dispositivos que inundaram e continuam a surgir no mercado, é óbvio que nem todos terão a sorte de vingar. Alguns até fazem bastante ruído inicial, mas acabam por extinguir-se. A necessidade de “selecção” decorre da sobreposição de funcionalidades. Factores como o preço, o marketing, a utilidade, os canais de distribuição e a personalização, ditam cada vez mais o destino de alguns desses gadgets. Neste entretanto, especialistas debatem, comparam, lançam prognósticos de morte súbita ou vitória para reinar.

O quadro que se segue, tenta pôr alguma luz sobre as designações existentes e sublinha o que os distingue, que às vezes não é mais do que o preço ou o mercado a que se destinam originalmente, empresarial ou privados.

dispositivos

Prato forte do CES 2010

Seguem os sectores com mais mexidas e que mais curiosidade despertaram no CES deste ano.

1. Telemóveis “smartphones”

A tecnologia móvel e os telemóveis inteligentes continuam a atrair as massas. A indústria da área não se faz rogada e não pára de melhorar, sendo actualmente os aspectos mais apetecíveis e inovadores: a tecnologia de voz, a óptima resolução, a maior velocidade e a integração de experiências 3D. É claro que o elemento geo-localização continua a merecer a atenção de todos pelo potencial económico que representa. O produto estrela foi o Nexus One, aliás lançado no dia 5 de Janeiro.

2. e-Readers

É um campo em franca expansão, depois que a Amazon se impôs no mercado com o Kindle. Marcas que se afirmam na paisagem dos e-Readers são: Kindle, Sony Reader, ProReader QUE (Plastic Logic), Nook.

Há quem comente que vão desaparecer, porque outros dispositivos, com um espectro maior de funções, os substituirão. Este prognóstico é contrariado pelo top de vendas da Amazon, pelo alargamento da venda do Kindle2 a mais 100 países, e pela adesão a este tipo de produto em alguns países, por exemplo, em Espanha existem 100 mil dispositivos e a compra de ebooks cresceu 400% num ano.

No CES, a inovação neste campo deu provas com leitores flexíveis e de grande formato. Caso do Skiff e do e-reader da LG Display, este com ecrã de 3mm e tamanho A3.

Nesta área, multiplicam-se as iniciativas para canais de distribuição de conteúdos a pagar. Depois da iniciativa Murdoch, vários jornais associam-se para criarem plataformas atractivas de distribuição de conteúdos para multidispositivo. Aliás, não será por acaso que o The New York Times se associou ao recente evento da Apple.

Paulo Querido criticou recentemente (Diário Económico, 28 Janeiro 2010) o facto de responsáveis do media estarem a jogar a sua última cartada desesperada nos dispositivos, quando o problema dos periódicos está na recusa teimosa em adaptar-se à nova realidade e desenvolver os conteúdos.

3. Tablets

O conceito do tablet PC tem outras designações – smart PC, slate, e não é novo. Nunca conseguiu vingar, mas agora parece regressar em força. Explora a tridimensionalidade, o ecrã touch e serve tanto o universo dos conteúdos como o do entretenimento.

No CES, o produto em destaque foi o Courier, o tablet da Microsoft-HP, que visa a área do office móvel, quer para leitura e consulta de ficheiros quer para criação, e ainda a área do lazer, permitindo jogar Xbox 360 sem comandos. Tem dois ecrãs, à semelhança de um livro, para múltiplas funcionalidades. A demo põe em destaque a intuitividade no uso.

4. Televisão 3D

Definitivamente, a novidade neste sector foi o 3D, muito impulsionada pelo filme Avatar. Estamos perante o casamento TV/ Internet há muito esperado, com ligações à Net, conteúdos on demand, networking.

Sony, Samsung, LG são as principais marcas. A mais tentacular, a Sony, domina toda a cadeia, desde o fabrico de televisão à criação de conteúdos para cinema e jogos, e deu mostras de estar empenhada em generalizar o 3D a todos os seus dispositivos. Desde logo, anunciou o plano para integrar esta tecnologia na Playsatation, nos computadores Vaio, nos leitores Blu-Ray, na televisão Bravia. O Mundial na África do Sul apresenta-se como palco de ensaios.

Face à falta de conteúdos 3D, que a Samsung e a LG já testemunharam, a Toshiba não cruzou os braços e avançou com uma solução de conversão 2D em 3D, a Cell TV. Provando que o timing é o correcto para ir mais adiante, a Discovery, a IMAX e a Sony juntaram-se para abordar o mercado doméstico americano com conteúdos 3D. É preciso dizer claramente que a necessidade de mercados grandes é imperativa face a uma produção televisiva exigente técnica e financeiramente, pois é necessário capturar imagens de várias câmaras (duplicação do processo), ou usar a técnica de espelhos.

Um outro obstáculo à generalização desta tecnologia é o uso obrigatório de óculos. Nesse sentido, há várias soluções: colocar película no ecrã, criação de óculos mais confortáveis que permitam a leitura de várias camada de informação sobre o mundo em redor (Realidade Aumentada). De tudo um pouco se deu notícia no CES.

5. Cloud

O conceito de cloud não é novidade em si, mas a extensão do armazenamento a particulares e não só a empresas, como até agora, é-o. E isso ganhou forma mais consistente no CES.

Outro tema forte, associado à cloud, é a necessidade cada vez maior de sincronização de dados de todos os dispositivos. No futuro, não interessa o local físico de armazenamento dos dados ou o dispositivo, mas a associação imediata e sempre actualizada desses dados ao indivíduo.

Um tiro no pé?

No passado dia 26 de Janeiro, a Apple apresentou publicamente o iPad, depois de uma campanha de pré-lançamento a alimentar expectativas. Apesar deste evento não ter estado inserido no CES, a especulação em torno já era anterior ao próprio show em Las Vegas. Além disso, a paisagem tecnológica 2010 não ficava completa sem conhecer o contributo e planos da Apple.

Muitos palpites e apostas foram feitas à volta do nome do novo dispositivo – iSlate? iTablet?; também muito se escreveu acerca do que poderia ser o novo tablet. No entanto, o anúncio de Steve Jobs veio revelar o iPad, um iPhone XXL!

Em relação ao nome, pude apurar que existe possibilidade da Apple estar a violar a lei de protecção de marcas. Quanto ao dispositivo em si, não é um verdadeiro tablet PC, é antes um smartphone aspirante a netbook. Esta definição pode soar a algo de precipitado, mas tal como outros dispositivos, é complicado definir o que é exactamente, porque rompe as fronteiras do PC, portátil, e-reader. A empresa diz que é para fazer concorrência aos e-readers e netbooks.

Todavia, não é exactamente assim. Vejamos a primeira parte. Pode dizer-se que é um iPhone grande a que acrescentaram a função de e-reader. Trata-se de um ataque directo à Amazon, que teve até agora um modelo fechado, mas que finalmente se está a mexer para criar app (jogos, puzzles, livros de viagem) e, terá, acrescento eu, de alargar a formatos standard e ao upload desde a biblioteca local e outras plataformas.

Quanto a atentar contra os netbooks, não vejo como, já que o iPad tem limitações em termos de: memória, instalação de software, ligação de periféricos. Ele não substitui um netbook, já que permite ver documentos, fotos, etc., mas não criar.

Em síntese, o iPad destina-se às seguintes funcionalidades:

  • Leitura e acesso fácil a ebooks graças à integração perfeita com loja online iBooks, à qual se associaram para já 5 editores de peso: Penguin, Harper Collins, Simon & Schuster, MacMillan, Hachette
  • Acesso a conteúdos da Internet, como fotos, áudio, vídeo
  • Visualização de filmes, graças ao suporte sem mãos e boa resolução, mas com limitações no flash
  • Funções de Office para email, consulta de documentos, apresentações, com teclado touch screen ou adaptado, mas impossibilitando a criação de documentos
  • Sincronização com ipod e iphone, mac

As reacções parecem ser unânimes em relação à verdadeira utilidade do iPad. É um smartphone melhorado, mas menos portátil, e também não chega a ser um netbook. Os gadgets já são muitos em deslocações: portátil, telefone, ipod, kindle, por isso são vários aqueles que se questionam acerca da necessidade de carregar mais um dispositivo, que apesar do preço bombástico, $499, é mais caro que os $299 do Kindle, é mais caro que um netbook corrente, é demasiado caro quando equiparado ao desempenho de um MacBook que custa $999.

Li uma posição com a qual concordo: a Apple tem dado o que não precisamos e existe muito marketing à mistura. Para quem tenha adquirido um Kindle e tenha um smartphone não faz sentido comprar um iPad. Os únicos motivos (nenhum deles lógico) que vejo são: porque é Apple e Apple é bom (marketing), porque sou viciado em gadgets.

Os compradores potenciais do iPad são, do meu ponto de vista, aqueles que esperaram para ver concorrência ao Kindle, aqueles que ainda não entraram na vaga dos smartphones, embora este iPad tenha, como se disse, o inconveniente do tamanho. Talvez estudantes, profissionais independentes venham a aderir. Perante isto, não entendo as afirmações de Jobs que dizia que ninguém ia resistir a ter um e que a Apple tinha desenhado o iPad para todos sem excepção.

A integração é positiva e é um requisito do mercado, mas deixa-me algo desconcertada esta redundância e ruído. Apesar dos muitos sucesso da Apple – ipod, iphone, acho que o iPad não vai ter a mesma sorte.


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