Já muita tinta correu sobre o caso Google na China. Preferi deixar passar o calor das declarações, juntar os pontos e escrever este comentário. Alguma distância permite melhor análise, embora a questão não seja clara sob muitos aspectos e este venha a ser um tema no fio da navalha no futuro.
Desde 2003 que o Google tentava penetrar no mercado chinês e, nessa altura, realizou a tradução do Google Search para mandarim. Sempre periférico, só conseguiu instalar-se em 2006, apostando num centro de desenvolvimento na área da pesquisa. Especialistas elogiam o trabalho do Google desde então que procura entender e lidar com as nuances da língua. Também muitos utilizadores sublinham a rica experiência de navegação face ao Baidu, motor de pesquisa líder no espaço chinês.
Com escritórios abertos e 800 empregados, a posição no mercado é significativa face ao gigante Baidu: 19% contra 75%, sobretudo tendo em conta os hábitos bem entranhados do uso do Baidu, conhecido desde 2000, a maior perícia do Baidu para pesquisar na língua, e as penalizações constantes do Governo chinês ao Google por não evitar conteúdos pornográficos.
Ao contrário da Yahoo, que colocou servidores em território chinês, o Google optou por ter o núcleo do controlo da informação fora do território para não criar vulnerabilidades nem ser obrigado a dar informação a pedido do governo.
Acontecimentos recentes, levaram a empresa a disparar o alerta laranja.
Por que razão só agora a oposição à censura passou a ser fundamental? É preciso não esquecer que a violação desse princípio e a cumplicidade e subserviência em relação ao regime opressor chinês fez-se desde a entrada da empresa no país.

Saturação? Chantagem? Pretexto para sair dignamente? Bluff para dissuadir o Governo chinês?
Muito se pode especular sobre as motivações do Google para dar este passo: exigir o termo da repressão na pesquisa. Estou certa que o apoio de retaguarda da Casa Branca e da política de Obama de lutar pela neutralidade da Internet pesaram muito. E viu-se na imediata reacção da Casa Branca e Hillary. Esperava Google que as empresas atacadas se unissem e fizessem o mesmo? Ora a Microsoft veio logo romper a cadeia de solidariedade… Será que Google está disposto a abdicar do mercado de 1,3 mil milhões? Custa a crer!
Comportamento deplorável, inclassificável, vergonhoso. Dizem que a actuação está de acordo com as leis. Fazem-nas à medida. Chantageiam, ameaçam retaliações económicas e dizem que as relações EUA/China já ficaram manchadas. É uma actuação sem escrúpulos que não obedece aos direitos humanos universalmente consagrados e um risco real para a liberdade e neutralidade da Internet no futuro, pois a China vai querer dar cartas nessa matéria e não faltarão “insensatos” a apoiá-la.
Na verdade, mereciam que muitos “Googles” lhes fizessem frente, desde o início, desde sempre, em constante choque. Na minha opinião, a preocupação de todos em relação a este episódio devia ser séria e concertada.
Fez o que tinha de fazer e a atitude só pecou por tardia. Toda a gente sabe que actualmente a China é o maior credor dos EUA.
As primeiras declarações da Casa Branca mostravam a preocupação de Obama e exigiam explicações.
Seguiu-se a intervenção de Hillary. Diplomaticamente, poderá ser considerada uma declaração dura, desajeitada, politicamente incorrecta. Não sei, mas gostei de ouvir com clareza que no século XXI todo o país que pratica a censura compromete o desenvolvimento, que os responsáveis devem ser punidos, que numa rede um ataque a um elemento é um ataque a todos.
Principais vítimas na história. Em reacções à ocorrência, uns declaram-se tristes pela possível saída do Google, outros acham que os chineses é que perdem, outros acham que é tempo do Governo do seu país acordar para a realidade.
Dou algum destaque à tomada de posição da Microsoft que viu o seu produto estrela envolvido na questão, o Internet Explorer, que facilitou e constituiu o ponto de lançamento do ataque.
Segundo história do Finantial Times, as declarações de Ballmer foram: «(He) described the affair as “the Google problem” and said: “Every large institution is being hacked. I don’t think it’s a fundamental change in the security environment on the internet.”»
Muita sacanice e falta de ética. O problema não é Google/ Microsoft. O alcance é maior, e quer queira quer não, a Microsoft está metida ao barulho. “O problema é do Google” é uma afirmação completamente irresponsável e inconsciente da gravidade da situação. A luta não é (só) comercial, mas (também) contra a censura no maior país e o mais prevaricador nesta matéria.
Ballmer optou por minimizar o facto, afirmar que ataques acontecem todos os dias às grandes empresas e que não compreende a ameaça de retirada do Google. Pelo contrário, confirma que a Microsoft se vai manter na China.
Achei pouco dignificante e até degradante. A Microsoft tem o seu mérito como player tecnológico, mas deixou sempre muito a desejar em ética e postura. Como dizia, são precisos muitos Googles, tenham eles o nome que tiverem e esta falta de solidariedade é preocupante, porque não é uma empresa que assusta o Governo chinês e a sua máquina bem oleada, mesmo que essa empresa seja o Google.
A assumpção de que algo esteve mal do lado da Microsoft não se fez esperar no espaço europeu, sempre mais cauteloso nestas questões de dados pessoais e privacidade. Pelo menos a França, Alemanha desaconselharam o uso do IE pela vulnerabilidade.
Na mesma altura é lançado o Firefox. Se eu não usasse, este episódio seria para mim suficientemente grave para me fazer mudar de navegador. Vale a pena o esforço, vale a pena opormo-nos à censura. Porque não começar por usar outros navegadores?
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3 de Maio de 2010
Depois da retirada do Google, o motor dominante – o Baidu, viu alargada a sua esfera de influência, embora os analistas digam que o benefício será temporário. Outros motores posicionam-se na corrida e prometem mais resistência: o Taobao o Tencent.
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