No mundo da tecnologia, a buzzword do momento é “augmented reality” (realidade aumentada RA). Prevê-se mesmo que 2010 seja o ano da massificação e inundação da RA no mercado.
Uma explicação rápida mas suficiente permite afirmar que na RA se adicionam ou sobrepõem camadas de informação à imagem captada por uma câmara. Essa informação adicional é carregada em bases de dados (descrições, críticas, recomendações de pessoas, anúncios, objectos para experimentar), em redes sociais ou de conhecimento como Flickr, Twitter, Wikipédia.
Para que a informação seja contextualizada e adequada à situação, é usada tecnologia de geo-localização, que permite apresentar a informação extra relevante para o local e circunstâncias do pedido. O que a pessoa tem de fazer é normalmente apontar o seu smartphone para o espaço donde quer obter informação. Também pode haver situações em que a realidade aumentada funciona com recurso aos gestos ou ao toque em superfícies tácteis inteligentes.
Muitos definem a RA como mistura entre a realidade e elementos virtuais, mas na verdade, não penso que “virtual” seja o termo. Trata-se mais da combinação da realidade física com a informação processada por computador. Não há nada de virtual, daí chamar-se “realidade”.
Até agora, a RA está a ser implementada em dispositivos móveis, sobretudo, como smartphones, ipods, webcams.
Está a ter um desenvolvimento rápido, até porque as empresas deste ramo estão à procura de rentabilizar o negócio e tudo indica que o próximo passo é a disponibilização de plataformas para desenvolvimento de aplicativos à semelhança do que se tem feito na área dos smartphones. A Layar, uma empresa pioneira, acaba de anunciar que terá a sua plataforma aberta para programadores que desejem desenvolver “camadas” de informação. Esses aplicativos informacionais poderão ser pagos ou gratuitos. Este anúncio pode vir a fazer da Layar a base de RA para todos os sistemas que já tem 1 milhão de utilizadores e promete manter a plataforma e formatos abertos.
Não se pense que esta tecnologia está a ser desenvolvida e testada apenas nos EUA. Também o Japão e alguns países europeus: Irlanda, Alemanha, França, Holanda, estão a avançar rapidamente com uma imensidão de mini-aplicações para os mais diversos fins.
A explosão de usos da RA nos mais diversos ramos de negócio é bem visível através da análise das camadas informativas que existem e estão a ser melhoradas para o Layar.
Yelp, GoWeb3D, Layar, Presselite, e muitos criadores e programadores individuais, criaram programas que usam RA e técnicas 3D. A própria Adobe tem um plugin com biblioteca 3D para Flash a que chamam Papervision. Os que estão a experimentar a RA comentam que é relativamente simples criar e transportar para os dispositivos pretendidos. A visualização do vídeo do Living Sasquatch, que tem tido réplicas de todo o mundo, mostra claramente o funcionamento desta tecnologia. Imprime-se inicialmente um código numa folha a que chamam o footprint. Usa-se o modelo 3D já existente, criando a sequência de movimentos pretendida. Na criação do efeito 3D, a webcam incide na folha e projecta o modelo com as acções que lhe atribuímos previamente.
Embora a RA esteja actualmente muito associada ao lazer e diversão, abrem-se muitas portas. Vou listar algumas com que me cruzei, apresentando os aplicativos que na sua maioria se destinam ao iPhone.
1. Sistemas de navegação, pesquisa local
RA tem potencial para criar uma navegação mais intuitiva e uma pesquisa mais contextualizada, como vimos. Para além do Yelp que tem tido muito sucesso pelo facto de apresentar informação social, ou seja, comentários e opiniões das pessoas acerca dos negócios, existem muitos outros, por exemplo, o Robot Vision, desenvolvido por Tim Sears, que funciona com a pesquisa local do motor Bing. Apresenta anúncios quando a câmara aponta para estabelecimentos e mostra fotos do Flickr da zona.
Outro peso pesado neste campo, mas em sistemas Android, é o Layar, já aqui falado. A sua aplicação base dá informações de restaurantes, Wikipédia, comentários de rede social de várias áreas (imobiliário, saúde, transporte, turismo, tempo, etc.). Outros programas conhecidos são: Wikitude, Acrossair.
2. Transporte, correios
São actualmente clientes da RA, ajudando a pessoa orientar-se no bus, metro, ou a calcular o pacote necessário para a sua encomenda. A empresa com mais visibilidade nesta área dos transporte sé a Presselite. A visita a qualquer das páginas dos seus produtos revela que a presença da publicidade e marcas é muito forte.
3. Educação, universidades e escolas
Estão a apostar internamente e a experimentar o que poderá ser no futuro as sebentas e materiais de estudo. Na superfície de um livro, pode ser usada RA para mostrar modelos 3D de obras, desenhos técnicos. Persegue-se um modelo de ensino mais contextualizado, imersivo, social, divertido.
4. Comércio
É certamente o ramo com mais aplicabilidade e desenvolvimento. Desde supermercados a lojas de conveniência, decoração e mobiliário, vestuário, acessórios, todos se prestam à RA que dá a possibilidade de escolher objectos, experimentar no rosto ou num espaço. A Shiseido no Japão tem um espelho para experimentar a maquilhagem. O sistema faz o scan do rosto, aplica a base e aplica os produtos de cosmética.
Aos concessionários, outro sector promissor, interessa criar experiências ricas e emotivas ao potencial comprador, possíveis com modelos 3D. Neste exemplo, a BMW usou o software Paintbrush 3D da Geometric, uma empresa da Índia.
Também o ramo das imobiliárias foram logo brindadas com aplicativos como o Yelp e estão a aproveitar bem a RA para pesquisa de imóveis, anúncios, visitas virtuais.
5. Lazer
É uma área que dará pano para mangas, como em tudo. Como seria de esperar, a rubrica do jogos como o Mosquitos, Wanted Dead or Alive, vem à cabeça. Mas também festivais, turismo, rotas e percursos, alojamento. O cinema conhece ou tem previstas aplicações em que é possível interagir com as personagens do um filme favorito. A vedeta do CES foi a francesa Parrot que apresentou o AR-Drone, um helicóptero cuja a estabilidade, capacidade de controlar movimentos e sensores para não bater nos objectos e calcular a velocidade a que se aproximam, surpreendem enormemente ao comando de um simples iPhone. A pessoa que comanda o objecto vê como se estivesse no seu interior a pilotar. Esta empresa planeia abrir a sua plataforma para criar jogos.
6. Publicidade
Sector florescente com a RA, porque passa a ser possível publicitar em espaços amplos e inimagináveis até aqui. Em todas as superfícies pode ser apresentada publicidade, seja em espaços interiores privados ou no exterior. Imagino que a publicidade venha a estar ainda mais presente no nosso campo de visão até porque não há limites à tecnologia e qualquer campanha neste meio é mais acessível. Tecnologicamente falando, o que impede uma empresa de lançar a sua publicidade no céu, na superfície de um lago ou no chão lá de casa? Nada.
Apesar da visibilidade de Portugal nestes campos ser pouca, seria uma falha não mencionar a YDreams que desde 2000 tem estado a trabalhar com RA. As suas tecnologias de pesquisa e desenvolvimento são até agora a RA propriamente dita, a YVision (combina computação, 3D, simulação das leis da física, interacção por gestos). Estas duas tecnologias abrem caminho à criação de experiências ao utilizador na área do turismo, educação, museus e exposições. Porém, outra área tecnológica tem estado na mira da equipa – as superfícies interactivas para papel, plástico, vidro, madeira, cerâmica, abrindo-se um amplo caminho para publicidade, embalagens inteligentes, etc.
Recentemente, e como já referido no artigo do CES, a YDreams em parceria com a empresa americana Canesta (câmaras 3D), apresentou a aplicação RA para Twitter. Um vídeo recente o programa Futuro Hoje explica o potencial por detrás do actual desenvolvimento. A interacção com os objectos 3D é ainda um tanto desajeitada e requer refinamentos para que a interacção seja mais natural. Essa é aliás, uma das fragilidades actuais da RA.
Como acontece em todas as tecnologias nascentes e que prometem muito, equacionam-se vantagens e problemas, desafios e perigos. Várias teses estão a focar a RA, mas achei particularmente curioso o vídeo realizado por Keiichi Matsuda que antecipa o impacto da RA no quotidiano, projecção do próprio no âmbito do seu Master. O que me deixa de certa forma incomodada é a intensidade da publicidade, numa forma de marketing hiper-imersivo, a sensação de um isolamento no seu mundo, sendo a interacção com vozes femininas pretensamente agradáveis e humanas.
A excesso de publicidade é aliás um dos problemas da lista:
Como este campo é bastante aliciante e está em franca expansão, deixo três blogs que têm muita literatura e seguem de perto o fenómeno. São eles: Augmented Times, Augmented Planet e Games Alfresco.
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