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Google do tamanho do mundo

Goste-se ou não, o que é certo é que o Google já faz parte da vida das pessoas. Isso até se comprova pela rapidez com que o termo e as variantes entraram nos hábitos dos falantes de todas as línguas: googler (francês), googolare, gugolare (italiano), googlar, googlear, guglear (espanhol), googelen (holandês), googlar (português).

Há uns anos atrás, nos idos 2006, a empresa mostrou algum aborrecimento por usarem a marca como verbo, mas o que poderia estar a ser encarado como uma desvantagem revelou-se com o tempo uma mais valia.

Inevitavelmente, perante tal poder, formaram-se opiniões, muitas vezes contrárias. Na iniciativa One Day Without Google sublinha-se o poder crescendo do grupo. Noutros casos, como no inquérito feito pela Pew Internet/ Elon University, os resultados à questão “Google will make people stupid?” fazem sobressair a ideia de que o motor mais famoso não estupidifica, embora possa criar preguiça mental. Também por várias vezes ao longo destes anos, foram lançadas questões às pessoas da rua sobre se conseguiam dispensar o Google das suas vidas. Recentemente colocou-se aos chineses a mesma pergunta, deixando clara a indiferença destes à retirada da Google.

Mas no meio deste caldo de reacções, o que me interessa é perceber os próximos passos da Google numa altura em que a sua agenda está algo agitada. Se por um lado tenta sossegar empresas de telecomunicações e indústria de lazer, por outro ficou debaixo de fogo com o novo produto – o Buzz. É também um momento em que envereda por áreas totalmente novas como a da energia e telecomunicações.

“O menino bonito”

Há dias, li no Cnet News que o Google gosta de ser o menino bonito. Estuda sempre a lição, prepara -se bem para os exames, interessa-se por muitas disciplinas e consegue alcançar bons resultados em todas. Enfim, é bem quisto por todos os pais e comunidade. Provavelmente por causa de cair quase sempre nas boas graças das pessoas, tem dificuldade em lidar com algumas críticas e falhas que vai cometendo. Todos temos assistido a desaires da Microsoft, a ataques directos às intenções do Facebook ao descurar a privacidade. Vir ao terreiro defender a dama é porém uma questão de honra da qual a Google não pensa abrir mão. Ainda recentemente, reagiu de imediato às críticas ao Buzz, corrigindo a falha e tentando repor a calma nas hostes.

Essa espécie de aluno bom comportado mereceu-lhe a simpatia de Washington com quem tem relações privilegiadas e de claro favorecimento.

Mas não há dúvida que a empresa não pára e aposta claramente na diversificação, não só ao nível dos produtos e serviços, como sói tratar-se, mas ao nível mais estratégico – diversificação nos ramos de negócio. Esse crescimento está a despertar em cadeia uma série de obstáculos vindos dos mais variados sectores.

1. Pesquisa

A fama e o poder da Google foi proporcionado pelo seu motor de pesquisa. O famoso algoritmo do cálculo do Page Rank é o Santo Graal da pesquisa que todos desejam obter. É claro que desde os primórdios muito desenvolvimento foi feito pelos técnicos da Google, mas nunca se descobriu a fórmula.

Recentemente, o crescimento do peso das redes sociais na Internet é tal que há já muitas pessoas cuja experiência na Internet se reduz às redes e que fazem todas as consultas desde aí e aí. Tanto assim é que as visitas geradas em muitos websites são já parcialmente oriundas das redes sociais. A juntar-se a esta realidade, assiste-se a um cada vez maior número de utilizadores com telemóvel para aceder à Internet e serviços.

A Google reagiu e para o primeiro caso realizou acordos com Twitter, Facebook e outras redes no sentido de integrar os resultados do universo social nas suas pesquisas; na mesma linha lançou o Buzz que procura integrar o Gmail com as redes. Para o segundo problema, tem adaptado produtos como Earth, Maps, Voice, Search Voice, tradutor, etc., à realidade móvel.

2. Publicidade

Apesar do motor Google ser a coqueluche, o que dá efectivamente dinheiro à empresa é a publicidade via Adsense e AdWords. Também esquemas de micro-pagamento que poderão vir a ser testados na plataforma Youtube que oferece actualmente qualidade HD poderão a ser prática corrente dentro em breve. É com essa aliciante que o Google se tem apresentado, quer no caso do Youtube, quer no do Google News e Google Books, que tanta polémica têm gerado.

Só para dar o exemplo do Youtube, não chegando a receita publicitária para cobrir os 356 milhões de custos pela manutenção da plataforma nem para satisfazer os produtores e distribuidores, Google acaba de criar este ano um serviço de aluguer de filmes (de momento só a funcionar para o público dos EUA). Está igualmente prevista a entrada num negócio “iTunes” com a compra da Catch Media.

Outras tantas iniciativas e batalhas, cada vez mais no plano judicial, estão a ser travadas no campo dos conteúdos, dos direitos de autor, da privacidade. Em sua defesa, a Google insiste na ideia de que não quer concentrar os lucros, que todos ganham no esquema que deseja implementar e que está interessada em matizar o modelo com as necessidades dos outros intervenientes.

3. Software/ Sistemas operativos

Além do desenvolvimento em tempo recorde do sistema operativo para telemóveis – o Android, a Google apostou forte no Chrome OS, quer no sistema de navegação quer no sistema operativo para notebooks.

Curiosamente, o sistema Android, desenhado para telemóveis, está a ser estendido com sucesso a outras plataformas, quer em notebooks quer em tablets. A HP acaba de lançar o seu portátil com o sistema Android, mas também dois tablets foram criados com o mesmo sistema, o Archo, o Compal e o Vega, o que prova a versatilidade do Android. Aliás, posso testemunhar a efervescência desta comunidade, inclusive no nosso país, numa recente formação em que participei.

4. Telefonia

Depois de surpreender tudo e todos com a apresentação do seu próprio telemóvel lançado a 5 de Janeiro, o mercado de telemóveis de tecnologia Android e/ou hardware Google (Nexus One) soma e segue. O sistema operativo Android está em 26 telemóveis diferentes e é vendido por 59 operadoras de telecomunicações em todo o mundo. O HTC Hero com Android foi eleito o melhor telemóvel 2009.

5. Energia

A entrada do pedido da Google para operar no mercado energético ocorreu em Dezembro passado, através da sua subsidiária Google Energy, mas só agora a entidade reguladora americana, a FERC, deu luz verde. Mais uma vez a surpresa foi grande. Mesmo no mercado americano é inédito, porque até agora as 1500 entidades com permissão são serviços públicos ou produtores de electricidade. É a primeira vez que é concedida licença a uma empresa estranha ao ramo, no caso uma empresa tecnológica.

A Google diz que o objectivo é atender às suas necessidades de produção de energia e apostar nas energias verdes, como decidido em 2007, mas nada a impede de se posicionar no mercado como fornecedor desses mesmos serviços e isso inevitavelmente acontecerá para rentabilizar know how e infraestrutura.

Em post anterior, já tinha falado dos consumos abissais de energia dos data center e do registo de patente do sistema de plataformas energéticas em alto mar.  Crê-se que a factura energética da Google seja qualquer coisa de assustador, sobretudo tendo em conta os muitos data centers espalhados pelo mundo, porém a empresa nunca revelou dados.

Os objectivos “0 carbono” definidos estrategicamente em 2007 são veiculados no blogue Going green at Google e compreendem a eficiência enegética, o uso de energias limpas e a compra de créditos de carbono para reduzir a pegada ecológica da empresa.

Algumas iniciativas da empresa nesta matéria cobrem a computação eficiente com a optimização de servidores e o uso de água e ar para arrefecimento, o uso de energias alternativas, sobretudo solar, caso da sede em Mountain View, o cuidado na construção dos edifícios, o estímulo às deslocações em bicicleta e partilha de carro para funcionários, e uma série de dispositivos de monitorização e poupança.

A título de exemplo, refiro o PowerMeter que mede e monitoriza o consumo doméstico e ajuda a optimizar uso energético. Sobre o impacto deste aparelho no comportamento do cidadão no RU, recomendo o artigo do The Guardian. Há ainda o Google Transit que usa o maps valorizando uso dos transportes públicos e mais uma série de gadgets para o desktop, como o Blackle, que usa ecrã preto, ou o Save electricity, que poupa cliques nas consultas.

Uma outra vertente que tem estado muito visível ultimamente dada a concentração de catástrofes naturais como as ocorridas no Haiti e Chile é a disponibilização de dados do clima, mapas, para as equipas de ajuda ou para a procura de familiares.

6. Telecomunicações

Para completar o ramalhete, só faltava mesmo ser ISP e fornecedor de banda larga, fazendo concorrência directa às operadores de rede.

Mesmo para um leigo, é compreensível a necessidade de boas ligação à Internet numa empresa como a Google, pois a velocidade da rede é como pão para a boca. Assim, para poder avançar com novos serviços e liderar o sector, sobretudo num momento em que querem estender o recurso à cloud, a empresa anunciou a criação de uma rede de área geográfica restrita, que beneficiará 50 mil pessoas até um máximo de meio milhão. Neste projecto piloto de rede rápida prometem 1Gb de largura de banda e velocidade 100 vezes superior, o que permite conferências 3D, transmissão de imagens médicas 3D, descarga de filmes HD em 5 minutos. A fase de inscrição de comunidades interessadas em participar termina a 26 de Março.

Para que se possa avaliar a importância do marco 100X mais rápido, basta dizer que a média da velocidade nos EUA é de 3,9 Mbps e que apenas 19% de todas as ligações no mundo gozam de uma velocidade superior a 5 Mbps.

A empresa sublinha que se trata de um ensaio, cujos resultados prometem partilhar para que este progresso se dê em vários pontos do mundo, e esclarece que desde há muito tempo investiga formas de melhorar o protocolo da Internet, a gestão dos pedidos aos servidores e o tráfego da rede e que está fortemente empenhada na modernização da rede e generalização da fibra óptica. Garantiu que defende a neutralidade da rede e que a sua rede estará aberta a terceiros.

Apesar dos comunicados, difícil tem sido sossegar as empresas de telecomunicações, que o diga Eric Schmidt, que em Espanha teve de enfrentar uma plateia enfurecida com os discursos inflamados do patrão da Telefónica, César Alierta, que incendiou as mentes ao acusar a Google de enriquecer à custa das empresas de telecomunicações, usando as suas redes, mas pagando-lhes nada, já que da fatia de publicidade gerada fica em território espanhol apenas 5%. O enviado da Google tentou mostrar que o telemóvel reúne vantagens para todos e que devem trabalhar em conjunto.

Existe claramente um entendimento errado desta questão, tendo-se exposto o ridículo da leitura do patrão da Telefónica ao dar-se como exemplo na rede eléctrica o pagamento da luz pelos consumidores finais, mas também pelos fabricantes e vendedores dos electrodomésticos. Ora a Google é intermediária e disponibiliza aplicações e plataformas, usando as redes cuja utilização é paga pelos clientes às operadoras.

Conclui-se facilmente que a empresa é cada vez mais vista como tendo duas faces e que o famoso slogan “Don’t be devil” está a ser cada vez mais contestado. Estar no pódio tem custos enormes, mesmo para uma empresa que cultiva a imagem e sabiamente tem gerido uma relação de simpatia com milhões dos seus clientes. Lá diz o ditado, agradar a gregos e troianos…